27 dezembro 2005

Nossa Senhora do Mirante

Nossa Senhora do Mirante
Um dia desses fomos à Câmara dos Vereadores para mostrar que temos interesse num projeto de lei que prevê uma obra de arte para cada construção com mais de 2 mil metros quadrados. Nós, digo: entidades de classe, professores de arte e alguns artistas avulsos. Nessa tarde ia se votar a lei, ia, mas não foi, porque havia assuntos atrasados e até hoje não fiquei sabendo se ela foi votada num outro dia ou não. Fizemos contatos, conchavos, fofocas. Como todos os outros que estavam lá. Por exemplo, os amigos dos bichos de rua que pressionaram para passar a lei das esterilizações (em vez da eutanásia). Soube, depois, que eles foram vitoriosos. Ninguém prestava atenção aos discursos dos vereadores, nem o público, nem os colegas vereadores, nem o presidente da mesa, embora os oradores sempre dissessem: "Senhor presidente!".

Mas, no meio dessa agitação, ouvi várias vezes "artista plástico". Comecei a prestar atenção numa vereadora, jovem e dinâmica, discursando sobre O mirante. Ela relatou como uma menina tinha subido aquela rampa, atrás de um colega que, chegando lá nos altos, a oito metros do chão, começara a pular e balançar a estrutura (previsto no projeto), o que fez a menina cair para trás e escorregar por cima da estrutura metálica em forma de tela cortante. Ela chegou a abrir os joelhos, raspou pele e carne até os tendões, que não se romperam por uma fração de milímetros, chegando os médicos a considerarem seu caso um milagre. A jovem vereadora pediu que esculturas, obras públicas, entregues para serem usadas pela população, fossem examinadas por peritos e recebessem um tipo de habite-se. Para se ter a garantia de que fossem seguras.

Eu ainda não tinha visto a escultura de José Resende, famoso artista plástico, participante dessa última Bienal do Mercosul. Mas logo me lembrei que outra escultura dele, numa Bienal anterior, também teve problemas de estrutura. Foi a cerca dentro do lago Guaíba que não suportou os primeiros ventos e passou toda a Bienal deitada, boiando, em vez de dividir as águas em pé, feita cerca dos pampas. Nem sempre a visão de um artista é utilizável ou viável na prática. O que pode ser feito numa escultura que é uma miragem, uma idéia visível que induz a uma reflexão, pode ficar bem mais complicado numa instalação, num ambiente penetrável pelo público. As idéias precisam voltar ao chão. Todo tipo de público e todo tipo de uso precisam ser levados em consideração, o que restringe obviamente a liberdade da idéia.

O mirante, inspirado no tipo de "porta-retrato"(Ramenbau) de Haus-Rucker-Co da 6ª Documenta de Kassel, leva o povo a ter uma visão nova da paisagem. Lá uma moldura gigante foi colocada dentro da paisagem, ela faz um recorte, foca um detalhe. Um grupo de arquitetos teve a idéia de usar no próprio nome a idéia que os move: mexer com as casas (Haus-ruck) e abrir novos espaços, novas perspectivas. Como o mirante na beira do lago: ele quer deixar o homem flutuando no vazio, mergulhando no mar de cores do pôr-do-sol. Mas a matéria não acompanhou o sonho. Hoje temos uma rampa fechada com fitas isolantes de obras e placas dizendo: "Acesso de menores somente acompanhados. É proibido pular na plataforma. Ação diversa é de responsabilidade exclusiva do agente". O mirante se transformou num objeto mirado, numa curiosidade do mundo das artes não muito bem compreendidas. E a menina não ficou paralítica, graças à Nossa Senhora do Mirante. Parece que ela ajudou também no projeto de lei do vereador Carrion.




--------------------------------------------------------------------------------

4 Comentarios:

Anonymous Anônimo disse...

To,

Vais me desculpar mas este projeto de lei é o fim da picada. Por que diabos, o cidadão que paga tanto imposto para ser usado em mensalões vai ser obrigado a pagar uma obra de arte que, por mais bonita que seja, ele não encomendou?
Pensa um pouco: se os médicos exigirem que todo prédio tenha um plantonista, se os padeiros propuserem que todo prédio tenha uma padaria, se todos os engenheiros exigirem que todo prédio contrate um engenheiro para manutenção, o que estarias dizendo?

15:20  
Blogger TO disse...

são prédios de grande porte
aí se junta um pouquinho da graninha e embeleza a cidade
puxa vida, que alma mais crua a tua!
floreça dos medici era bem mais sensível

21:11  
Anonymous Anônimo disse...

Não me comoveste.

15:03  
Blogger TO disse...

não te comoví pq escreví Florença sem o n

19:53  

Postar um comentário

<< Home