O Monstruoso Obstáculo
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Iniciei a quarta e ultima rodada das minhas ferias de 2007 pretendendo passar e dormir o primeiro dia nas cercanias das Cachoeiras dos Venancios, nos primeiros quilometros da estrada de terra que liga Cambara a Jaquirana. A intencao, como sempre, era ver as paisagens menos usuais, so descortinaveis nas vias menos trafegadas e, dessa feita, inclusive com o proposito adicional de tentar capturar imagens de especimes de passaros. So que, saindo muito, muito cedo do portinho, sucedeu que cheguei `a regiao das Cachoeiras um pouquinho antes das 9 da manha.Considerei nao valia a pena perder ali um dia inteiro das ferias visto que, estava demonstrado do ponto de vista temporal, a regiao estara sempre perfeitamente acessivel em poucas horas. Decidi ganhar chao, e segui em frente rumo ao norte onde tinha escolhido transitar, pela primeira vez, a rota que liga Bom Jesus a Sao Joaquim via Casa Branca, praticamente toda ela em estradas de terra. Tendo, por seguranca, reabastecido e colhido informacoes em um posto em Bom Jesus, o inicio da estrada ja era promissor...

Fui seguindo no tranco usual de 30-40km/h as voltas no barro e pedras, sempre mergulhado na magnifica luminosidade do dia e absorto pelas paisagens ineditas. Subidas, descidas, curvas e contracurvas e entao ja nao havia duvidas das proximidades do Rio Pelotas e da fronteira dos estados. Nao apenas pela usual trajetoria ingreme e tortuosa que encaminha aos rios maiores, como ate por avistar a imponente massa d'agua.
Eventualmente, a estrada comeca a flanquear o rio ate chegar a uma pequena ponte justo sobre a foz, em "Y", de um tributario.


Cruzada essa ponte, quase imediatamente ha um desvio `a esquerda na estrada que, vejo pela janela, leva a uma outra ponte, essa sobre o Rio Pelotas propriamente...
Sobre o rio, eu disse? Nao, nao.
SOB o rio!
Exceto pelas cabeceiras, a dita ponte estava praticamente toda submersa na correnteza volumosa, intensa e ruidosa...
— Nao deve ser aqui!, pensei, e resolvi seguir em frente a estrada que margeava o Pelotas pelo sul, apesar do que contava a imagem no GPS.

Par de quilometros adiante, tanto o GPS, como o progressivo afastamento das margens do rio, sentenciavam definitivamente que outra ponte por ali nao haveria. Maldizendo minha falta de previsao por nao ter, como costumo quando imagino um ponto da rota contenha algo de maior interesse, examinado previamente a area no Google Earth, arranjei um local da estrada com suficiente espaco para manobrar e retornei.

De volta `a encruzilhada, embico para a ponte submersa. Paro, desligo o motor. Desco, e acendo um cigarro...
Olhando a correnteza espumando nas abas da ponte, ouvindo o rugido grave, continuo e intenso, entre tragadas fico considerando: Passo? Ou volto?

Se por qualquer motivo 'naufrago' aqui, socorro talvez o mes que vem, imagino. Afinal, em todo o percurso desde Bom Jesus eu nao tinha cruzado um unico veiculo, nem indo, nem voltando. O rico do meu equipamento fotografico, todos os meus documentos importantes, o carro, a grana para a viagem, tudo a bordo... Se o rio levar, recuperar sera coisa de meses. Meses? Anos! Mas afinal, ha anos a ponte ha de estar ali; nao sera agora que vai ruir... E aquele galho, la no meio? Sera que tem espaco para eu passar sem bater? E essa ponte consta ate no mapa do GPS, oras. Outros com certeza passaram, e muitos. Mas com ela submersa? Nessa correnteza toda?
Chego ao fim do cigarro e decido: Vou!
Devia mas, estupidamente, nao considerei a hipotese de passar primeiro a pe, para sondar o fundo e, inclusive, remover aquele maldito galho. Sentei, liguei o motor, engatei uma terceira reduzida (diferencial bloqueado, rotacao alta e baixa velocidade para manter tracao e nao perder o torque; deixar apagar o motor com o cano de descarga submerso e' o fim) e mergulho na ponte, a agua pelos eixos. Avanco continuo, giro alto, sem solavancos ou maiores resistencias, consigo desviar do galho no meio com mais de dois centimetros de folga! Ja quase do outro lado, ja comecando a sentir um alivio, de repente um subito, ingreme afundamento da pista, a frente do carro baixa acentuadamente. Piso mais no acelerador para contrabalancar o forte aumento do arrasto, enquanto tento engulir o coracao de volta, de repente o rugido da correnteza subjugado por audibilissimos batimentos certamente acima de 120 por minuto! Me fudi!!...
Nada! Nem um metro e ja a frente levanta outra vez. Era so uma depressaozinha de uns 20 centimetros de fundura, em seguida estou nivelado e ja saio no seco do outro lado. Cacete!!
No seco, vinte metros alem da cabeceira, estaciono, desligo e desco para outro cigarro. Ao acende-lo noto o tremor fino, residuo inequivoco do cagaco-mor. Maldizendo outra vez minha estupidez de nao ter 'testado' o caminho a pe e com um bordao — idiota! — antes de continuar o rumo de Sao Joaquim, ufano e sorridente vou tomar umas imagens do "Monstruoso Obstaculo"...

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O resto da jornada correu sem eventos de monta. Em tempo, Sao Joaquim e dali pelo asfalto ate Bom Jardim da Serra e os confortos da antiga Pousada, hoje EcoResort do Rio do Rastro, para conhecer os novos chales (da Mata) desenvolvidos pelo Roberto,

incluindo direito a, muito merecida e bem-vinda, hidromassagem privativa

e, no fim do dia, digerindo a janta consumindo uma Eisenbahn Rauchbier bem gelada na varanda com calefacao, uma visao paradisiaca...

E, o mais legal, ano que vem tem mais...































