Concepção e Nascimento
A vida é como um campo de futebol com uma bola pronta para ser chutada, mas às vezes não há jogadores e o campo não é usado. O inço cresce.
A criação da Bienal do Mercosul foi um pipocar generalizado para descentralizar a força motora da Bienal de São Paulo, muito orientada pelos centros internacionais, e colocar em debate a arte do sul da América Latina. O crítico José Luiz do Amaral tentava estabelecer boas vizinhanças com o Uruguai e a Argentina para facilitar um vai e vem entre os artistas e suas obras. Chegou a montar pequenas exposições nos respectivos países. A produtora cultural Maria Benites elaborou um projeto chamado Bienal do Cone Sul (fruto de um encontro dela com o empresário Jorge Johannpeter no aeroporto, quando ela ia tratar da vinda da parte histórica de uma Bienal de São Paulo para o Edel-Trade-Center- Concepção-), pôs numa pasta cor de rosa e entregou-a à Secretária de Cultura, Senhora Mila Cauduro. Enquanto em Curitiba se cogitava fazer também uma Bienal do Cone Sul, por aqui a pasta cor de rosa dormia numa gaveta. O jogo pendeu para o campo verde de Porto Alegre, com uma bola colocada pelo Secretário de Cultura Jorge Appel.Ele foi à procura de uns jogadores para colocar em ação o jogo latente das artes e achou o grupo certo. Montou um time com mais atacantes do que goleiros, mas de paixão e garra. Esta equipe já havia mostrado jogo durante décadas: a paixão de mudar a cidade através da arte (não foi sempre assim na história da humanidade?). Os jogadores já tinham pensado transformar a Travessa do Carmo num centro de arte pública, pintaram um mural (até o mestre Malagoli participava), colocaram uma escultura na praça da Epatur, participaram do ateliê coletivo Ponto das Artes da Beth Nuñes junto ao Mercadão das Artes, atacaram o Muro da Mauá, criaram o movimento POA 90 - A Última Década que depois resultaria no Projeto Espaço Urbano Espaço Arte da Prefeitura; criaram um Ateliê aberto ao público marginalizado pelos circuitos oficiais, o Eucaliptos Panela Center, no último andar do Estádio dos Eucaliptos, e sua sede social era o Bar Superfrango, em frente. Jogaram muitas partidas mais, na maior parte sem resultado concreto, mas semearam muitas idéias que um dia ainda podem se concretizar, como um Parque de Esculturas em Gramado.
Pois é, tinha mais atacantes do que gente na defesa e no gol, isso foi um erro de estratégia, mas quem é perfeito? Grêmio e Inter que o digam.
Os jogadores não tinham empresários, mas tinham um jornal, o Então, que fazia furor na cidade. Criava muitos admiradores, mas talvez ainda mais inimigos na torcida adversária. Em dúvida sobre quem colocar como diretor no Museu de Arte, o secretário Appel consultou seu colega de basquete, o jogador Nelson Jungbluth, que, por sua vez, consultou a equipe de jogadores: concluiram que estava na hora de colocar uma super-administradora na direção do Margs. A escolhida foi a mais tchã, a senhora Maria Helena Johannpeter. A resposta foi na lata: puxa, que legal seria, mas não tenho tempo para uma função integral, porém num projeto especial, contem comigo. Plim, plim: a pasta cor de rosa!!!! Os jogadores tinham uma cópia!
O assunto era urgente, Curitiba iria botar o time em campo e levar a Bienal. A jogada começou com Nelson que passou para o Appel que, rápido no gatilho, lançou na grande área do Governador Britto. Houve um jantar muito caprichado feito pelo senhor Justo Werlang. Para este foi convidado o senhor Johannpeter que ama as artes e, mesmo sem jantar, teria dito que sim (Afinal ele já tinha dito que sim no aeroporto). Ele perguntou aos jogadores quais seriam as regras do jogo. Aí, afloraram os ideais de todos, mas em especial a vontade nunca satisfeita de conhecer os vizinhos: ninguém conhecia um artista argentino, um uruguaio, um paraguaio, um chileno, como eles também não conheciam os brasileiros. Os jogadores queriam partidas amistosas com os vizinhos, muitos encontros, porque os outros jogadores das artes lá n aEuropa e América do Norte eles já conheciam bastante pela Bienal de São Paulo.
Assim se criou a Bienal do Mercosul, uma Bienal Latino-Americana. Foi gol!- (Nascimento). Hoje, 10 anos depois, está cada vez mais longe da idéia inicial, mas a Bienal está aí. Quem sabe, um dia, terá uma edição assim como foi idealizada pelo grupo que fez o papel de parteiros, porque nada se sabe da idéia que estava atrás da concepção.
O time da época jogava com Caé Braga, Paulo Chimendes, Nelson Jungbluth, Paulo Olszewski, Maia Menna Barreto, Gustavo Nakle, Manolo Doyle, Maria Tomaselli, Wilson Cavalcanti, Paulo Roberto G. Ferreira. Todo mundo pra frente!
escrito a 4 mãos por:
Maria Tomaselli Cirne Lima-artista plástica
Paulo Roberto Gaiger Ferreira- jornalista e advogado