Ruan
A arte pode tudo?Esta questão está se colocando de novo, e com muita força, na exposição de arte chinesa no Kunstmuseum Bern, Suíça, que pode ser vista até 16 de outubro deste ano. Lá está exposto, aliás esteve, porque foi retirado após veemente protesto de Beat Sitter, professor de Ética das Ciências, um objeto de arte que é um cadáver de pássaro em que estava implantado a cabeça de um feto humano. Sim, os dois "real life", melhor, verdadeiramente mortos, mas reais, nada comparável a réplicas em cera do gabinete de Madame Tussaud, ou artefatos em silicone ou poliéster, às vezes enganadoras de tão "reais". O mesmo objeto de arte, uma natureza-morta, melhor dito e com total propriedade, foi exposto em 2001 na Bienal de Veneza e ninguém disse nada. Agora, na Suíça calvinista, se discute os limites da arte e suas blasfêmias e de seus deboches, cada vez mais freqüentes, já que o lema é "romper todos os limites, chocar sempre". O artista chinês Xiao Yu diz de sua obra chamada Ruan que ele queria exatamente protestar contra os abusos cometidos contra vidas, e, juntando duas vidas, que por uma razão ou outra não deram certo, dar a elas uma sobrevida, uma outra vida. Ele conta também que comprou o feto humano feminino que data dos anos 60 de alguém ligado a uma exposição científica que houve em Beijing. Bom, contrabando de gente e de cadáveres sempre foi um ramo lucrativo da atividade humana, dizem que fica atrás somente de contrabando de armas. Já a artista mexicana Teresa Margolles, que estudou medicina forense, usa e abusa das águas usadas (cruzes, quanto uso de abuso!) no tratamento de cadáveres para executar suas obras (lembram da última Bienal do Mercosul?). O cheiro e aspecto das águas, junto à informação sobre sua origem, criam os cadáveres (não mostrados) na mente do expectador. É melhor assim? Mas, Teresa também usou um feto para criar sua obra Burial (Enterro). Conseguiu o feto humano de uma mulher mexicana que, sem ter dinheiro para um enterro, o entregou à artista pedindo que a ele fosse poupado o destino usual (qual seria?). A artista "enterrou-o" numa coluna de concreto e ele, em vez de achar a paz que a Terra daria, virou delícia para voyeur e girou o mundo como objeto de exposição. Um pouco melhor do que Ruan, mas, por prevenção, vou deixar um testamento para não cair nas mãos de "artistas"! Cadáver por cadáver, fico com Goya e seus Horrores da guerra, mas para isso é preciso saber desenhar, ou reinterpretá-lo em forma de escultura, como fizeram os irmãos Jake & Dinos Chapman, nos dois casos abstraindo da realidade ara poder pontuá-la. P.S.: quinta feira, dia 8 de setembro, Ruan voltou a ser exposto, mas em sala separada, e com segurança especial. Requiescat in pace.