Silêncio chato
A transmissao simultanea pela ESPN e pelo Sportv do US Open sedimentou a abissal diferenca nos padroes de narracao e, principalmente, comentario entre o que e' praticamente o paradigma internacional e o que eu chamo (para abominar!, diga-se) de Nova Escola.Uma transmissao esportiva consiste normalmente de um narrador incando as peculiaridades de cada jogada, temperando-as com maior ou menor enfase para adicionar vibracao, e um comentarista que alem de apontar minucias de eventuais jogadas excepcionais, oferece uma visao mais ampla quanto a taticas e estrategias que o espectador usualmente nao alcanca, ou por limitacoes da telinha, como no futebol, ou por limitacoes pessoais mesmo, como eu assitindo futebol. Ate por isso, e' mais ou menos padronizado que se coloque como comentarista um ex-praticante do esporte em tela, tanto por sua familiaridade como por sua experiencia, para poder apontar nuances que 'leigos' nao sabem ver e desdobramentos tecnicos que so quem experimentou pode conhecer.
Exemplo tipico, quase ideal, de tal comentarista, o Thomas Koch: capaz de ver e apontar minucias que praticamente ninguem mais alcanca, preve com inacreditavel frequencia variacao nos padroes de jogadas, antecipa taticas, consegue equacionar sabiamente o momento estrategico do jogo. Mostra mais, bem mais, do que o que aparece na telinha.
Ja os representantes da (aargh!) Nova Escola, capitaneados pelo insuportavel Dacio Campos tem outra abordagem: calam-se durante a jogada dos pontos e, nos intervalos — imaginando que os espectadores sao cegos, sera? — recapitulam oralmente o que se acabou de ver dando enfase a minucias tecnicas em geral irrelevantes, nao raro equivocadas, irritantemente repetidas ad nauseam. Eventualmente adicionam `a 'aula' palpites quanto ao que o jogador deveria ter feito ou deixado de fazer. Invariavelmente, uma visao miope, focada no ponto recem-disputado, nunca uma visao mais ampla do momento estrategico, jamais do jogo como um todo.

Tudo bem, concordo que nao e' dificil de entender as razoes. Enquanto o Thomas Koch, o John McEnroe, essa turma, foram jogadores de topo, o Dacio Campos e sua malta jamais chegaram sequer a ser habituees do circuito Masters. Comportam-se como instrutores, abordam o basico do basico com a monotona didatica da repeticao porque, afinal, foi isso o que mais fizerem profissionalmente: dar aulas a principiantes, ao inves de conquistar titulos. Ninguem pode ensinar o que nao sabe, muito menos comentar o que nao ve, nunca viu...
Mas e' chato, muito chato, ter de assistir tenis na TV sem volume.